'Vaticano muçulmano'? Europa pode ganhar novo menor país do mundo
17/03/2026
(Foto: Reprodução) Centro Mundial Bektashi, área escolhida pelo primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, para abrigar um futuro Estado nos moldes do Vaticano.
Reuters/Florion Goga
A Albânia pode ceder parte de sua capital, Tirana, para a criação de um Estado muçulmano soberano. Segundo o primeiro-ministro, Edi Rama, a intenção é preservar e promover a tolerância religiosa.
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Os planos do líder albanês foram divulgados em 2024 e, até o momento, aguardam aprovação parlamentar.
Caso passe pelo Congresso, a medida resultará na criação do menor país do mundo, que superaria o Vaticano. Segundo uma reportagem do New York Times, o tamanho do Estado seria equivalente a cinco quarteirões de Nova York, o que equivale a 30 mil m² --- o país do papa tem cerca de 440 mil m².
O território proposto fica em um complexo no leste de Tirana e deve funcionar como um enclave soberano, nos moldes do Vaticano, com administração própria, passaportes e fronteiras. A área pertence à Ordem Bektashi, uma corrente de tradição sufista dentro do islamismo, conhecida por uma interpretação mais flexível e heterodoxa da religião.
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"Espaço de tolerância"
Rama disse que o estado simbólico seria "sem muros, sem polícia, sem exército, sem impostos ou outros atributos, mas uma sede, um estado espiritual".
Segundo o primeiro-ministro, a criação do microestado também busca enviar uma mensagem internacional de que o islamismo não deve ser associado ao extremismo. “Não deixem que o estigma dos muçulmanos defina quem são os muçulmanos”, afirmou.
Ainda segundo o New York Times, o país, nos planos de Rama, vai permitir o consumo de álcool, dar liberdade para as mulheres se vestirem como quiserem e não impor regras de estilo de vida.
A ideia é que o país seja comandado pelo líder religioso Edmond Brahimaj, conhecido como Baba Mondi. Ele afirma que pretende governar com base em uma visão moderada do islamismo. “Deus não proíbe nada; é por isso que nos deu mentes”, disse, ao explicar sua abordagem.
Resistência à ideia
A proposta não é consenso dentro da própria Albânia e enfrenta resistência de lideranças religiosas e especialistas. Na época do anúncio, a Comunidade Muçulmana da Albânia afirmou ver a iniciativa como “um precedente perigoso para o futuro do país” e destacou que é a única representante oficial do Islã no território.
“Esta iniciativa, da qual tomamos conhecimento através da mídia, não foi discutida com as comunidades religiosas”, afirmou a instituição, na época. A Comunidade citou, ainda, o Conselho Inter-religioso da Albânia como o fórum adequado para discutir a questão.
Para o pesquisador Besnik Sinani, ouvido pela agência Deutsche Welle (DW) em 2024, o plano pode afetar negativamente o equilíbrio entre as religiões no país.
Segundo ele, não há atualmente nenhuma situação que justifique a criação de um novo Estado. “Argumentar que esse suposto Estado Bektashi terá um impacto positivo no clima de tolerância da região é, portanto, infundado”, disse.
Sinani avalia ainda que, se implementada, a medida pode “perturbar os arranjos históricos da relação entre religião e Estado na Albânia”, estabelecidos desde a fundação do país.
Outro ponto levantado por especialistas é o risco de a iniciativa levar a Albânia a ser rotulada como um “Estado islâmico”.
Apesar das críticas, a Ordem Mundial Bektashi sustenta que o projeto tem caráter exclusivamente espiritual e afirma que o novo Estado “não terá outro objetivo senão a liderança espiritual”.