‘Eles chegam revoltados’: por dentro dos grupos reflexivos para autores de violência contra a mulher

  • 07/08/2026
(Foto: Reprodução)
Como funcionam os grupos reflexivos para homens enquadrados na Lei Maria da Penha “Eles chegam revoltados porque se acham vítimas das mulheres.” A resistência descrita pelo psicólogo Marcio Carvalho é comum entre homens que chegam aos grupos reflexivos para autores de violência doméstica. Encaminhados pela Justiça, eles participam de encontros semanais voltados à responsabilização e à mudança de comportamento. Nos 20 anos da Lei Maria da Penha, criada em 7 de agosto de 2006, o g1 acompanhou de perto como esse trabalho é feito em grupos que funcionam nos fóruns do Rio de Janeiro e de Niterói. Além de conversar com os psicólogos responsáveis pelos encontros, a reportagem ouviu dois participantes, sob a condição de anonimato. Ele relataram como passaram a reconhecer como violência comportamentos que antes consideravam normais. “Eu era muito agressivo. Não agressivo em agredir fisicamente, mas agressivo na palavra”, contou um deles. O outro participante citou comportamentos como tentar controlar a roupa da companheira, impedir que ela saia com amigas ou pegar seu celular. “Às vezes, o homem não gosta quando a mulher sai de casa com determinada roupa ou que saia com as amigas para tomar um chope no fim de semana. Subtrair pertences da mulher, pegar celular, enfim. Essas coisas também são violência”, afirmou. A proposta dos grupos é interromper ciclos de agressão e reduzir o risco de reincidência e de formas mais graves de violência, como o feminicídio. A participação é determinada pela Justiça como uma das medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha ou durante o cumprimento da pena. O objetivo é fazer com que os participantes reflitam sobre suas atitudes, compreendam os diferentes tipos de violência contra a mulher e desenvolvam formas mais adequadas de lidar com conflitos. Os grupos reflexivos foram incluídos na em 2020 na Lei Maria da Penha, que há 20 anos representou um marco no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher ao criar mecanismos de prevenção, proteção e punição aos agressores. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Como funciona na prática Fórum de Niterói Gustavo Wanderley/g1 O programa é composto por oito encontros presenciais, realizados uma vez por semana, com duração de duas horas cada. Ao final do processo, é emitido um documento que é anexado ao processo judicial para comprovar a participação do agressor. O não comparecimento, sem justificativa aceita pela Justiça, pode resultar em sanções judiciais, incluindo prisão.  Cada grupo conta com pelo menos um facilitador. Em alguns casos, os encontros são conduzidos por uma dupla formada por um homem e uma mulher.  No Fórum de Niterói, o g1 conversou com a psicóloga Marcia Valéria Guinancio, que coordena e conduz grupos reflexivos há 13 anos.  Ela afirma que, nos grupos, é comum identificar a falta de conhecimento sobre as diferentes formas de violência previstas na Lei Maria da Penha. “Quando nós começamos a trazer exemplos de formas de violência, eles vão tendo consciência de como eles já praticaram algumas violências e alguns até perguntam: ‘ah, eu só fiz uma vez. Eu cometi violência?”   Segundo ela, os casos de reincidência observados ao longo desse período foram raros: "Nesses 13 anos facilitando os grupos, apenas 4 voltaram."  Já no Fórum do Rio de Janeiro, o psicólogo Marcio Carvalho, que atua há 7 anos com os grupos, afirma que muitos participantes chegam aos encontros resistentes à proposta por se acharem vítimas das mulheres.  Ao longo das reuniões são discutidos temas como: masculinidade, crenças culturais, relações de gênero, violência contra as mulheres, habilidades de comunicação, Lei Maria da Penha e autorresponsabilização.  Os facilitadores utilizam vídeos, músicas e textos para estimular debates e reflexões. Os participantes são incentivados a compartilhar experiências e analisar comportamentos que, muitas vezes, consideravam normais.  Durante os encontros, os facilitadores discutem as diferentes formas de violência previstas na Lei Maria da Penha: psicológica, moral, física, sexual e patrimonial (entenda abaixo). Os cinco tipos de violência contra a mulher Arte g1 'Eu era agressivo na palavra', diz homem Dois participantes, um de Niterói e outro do Rio de Janeiro, aceitaram falar com o g1 sobre a experiência. Ambos relataram que passaram a reconhecer comportamentos que antes não identificavam como violência.  O primeiro participante foi encaminhado ao grupo após uma discussão com a esposa que terminou em agressão física e verbal. O segundo recebeu a determinação judicial após cometer injúria virtual durante uma disputa relacionada à guarda do filho. Eles contam que inicialmente resistiram à obrigatoriedade da participação, mas afirmam que os encontros trouxeram mudanças para suas vidas. “Eu era muito agressivo. Não agressivo em agredir fisicamente, mas agressivo na palavra”, disse o primeiro participante. Segundo os relatos, novas formas de comunicação passaram a substituir reações que antes terminavam em agressões e conflitos.  "Eu acho que isso é muito libertador. Você vê outras possibilidades na vida. Consegue ver a vida caminhando de uma maneira mais leve", conta. "Eu falo até com meus amigos: 'Cara, pensa bem na atitude que  tu vai  tomar com tua esposa. Não dá? Senta, conversa. Quer separar? Separa, mas não agride não'", diz o outro homem. 20 ANOS DA LEI MARIA DA PENHA: Nos 20 anos da lei, Brasil tem recorde de medidas protetivas Órfãos do feminicídio tentam reconstruir a vida: 'Muita saudade' Pensão a órfãos de feminicídio; veja as regras e como pedir Saiba como identificar e denunciar violência doméstica Masculinidade, violência  e papéis de gênero Uma das discussões centrais dos grupos está relacionada à forma como a sociedade constrói a ideia de masculinidade. Segundo Marcia Guinancio, muitos homens aprendem desde cedo que precisam exercer controle sobre determinadas situações e que a violência pode ser uma forma legítima de resolver conflitos. “Culturalmente, a masculinidade está muito atrelada a resolver os problemas através da violência.” A psicóloga afirma que episódios de violência doméstica muitas vezes acontecem quando o homem sente que perdeu o controle de determinada situação e tenta recuperá-lo por meio da agressão. Marcio Carvalho explica que uma das estratégias trabalhadas nos grupos é transformar a agressividade em diálogo: “O que a gente busca é converter a agressividade em palavra”. A proposta é ampliar a capacidade dos participantes de lidar com frustrações, divergências e conflitos sem recorrer à violência. Os grupos também debatem expectativas tradicionalmente associadas a homens e mulheres. Entre elas, a ideia de que homens devem ser fortes, dominantes e não demonstrar sentimentos, enquanto mulheres seriam naturalmente mais sensíveis, submissas e responsáveis pelos cuidados da família. Para os profissionais, essas concepções rígidas afetam toda a sociedade. Enquanto mulheres seguem sendo as principais vítimas da violência doméstica, homens também podem sofrer consequências do machismo, como dificuldades para expressar emoções, buscar ajuda psicológica ou cuidar da própria saúde, reflete Carvalho. “O homem não aprendeu a se revelar. A gente pode falar muito e não se revelar, principalmente as coisas vulneráveis que a gente tem.” Marcia Guinancio acredita que ampliar as possibilidades de expressão da masculinidade é fundamental para reduzir esses impactos. “O que a gente pensa quando estuda a masculinidade é a possibilidade de existirem expressões diversas de ser homem, porque quando há rigidez, há adoecimento.” Grupos cresceram 125% e já atenderam 334 mil homens Apesar da expansão dos grupos reflexivos para autores de violência doméstica no país, ainda não há uma base pública nacional que informe quantos homens já participaram desses programas por determinação judicial nem uma taxa consolidada de reincidência após a participação. Levantamento divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostra que o número de iniciativas em funcionamento no Brasil passou de 312 grupos, em 2020, para 498 em 2023 e chegou a 704 em 2026. Isso representa um crescimento de 41,4% em relação ao levantamento anterior e de 125,6% desde o primeiro mapeamento. A quantidade de atendidos desde 2023, quando a contagem começou, é de 334.465 homens. Pesquisas e experiências locais apontam índices reduzidos de reincidência entre participantes dos grupos, mas especialistas destacam a necessidade de avaliações sistemáticas e de um sistema nacional de monitoramento que permita medir com maior precisão os resultados dessas iniciativas. História trágica deu origem à Lei Maria da Penha  A Lei Maria da Penha foi criada a partir da história de violência doméstica sofrida por Maria da Penha Maia Fernandes, que, em 29 de maio de 1983, levou um tiro do então marido, Marco Antônio Heredia Viveiros, enquanto dormia. O disparo atingiu a coluna vertebral de Maria da Penha e a deixou paraplégica. Meses depois, segundo as investigações, Marco Antônio tentou matá-la novamente ao tentar eletrocutá-la durante o banho. Apesar das provas reunidas e das condenações já impostas, a demora no processo judicial fez com que o agressor continuasse em liberdade, sem cumprir pena. Em 1998, Maria da Penha, com apoio de organizações de defesa dos direitos das mulheres, levou o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), que responsabilizou o Brasil por negligência e omissão no enfrentamento à violência doméstica.  Em 2002, quase 20 anos após o crime, Marco Antônio foi preso e condenado a 8 anos e 6 meses de prisão. A repercussão internacional pressionou o Estado brasileiro a adotar mecanismos mais eficazes de proteção às mulheres, culminando na criação da Lei nº 11.340, sancionada em 2006 e conhecida como Lei Maria da Penha.  Lei paralisou, diz Maria da Penha 'A lei foi um divisor de águas, só que ela paralisou', reflete Maria da Penha Apesar dos avanços obtidos desde a criação da lei, a própria Maria da Penha avalia que ainda há desafios importantes a serem enfrentados. Em entrevista concedida neste ano, ela comentou os efeitos da legislação após duas décadas de vigência:  "Eu acho que a lei foi um divisor de águas. Só que ela paralisou, ela não está avançando no combate à violência contra a mulher."  Para Maria da Penha, a prevenção da violência também passa pela educação, com discussões sobre igualdade de gênero, respeito às mulheres e resolução não violenta de conflitos desde a infância.  Os coordenadores dos grupos reflexivos defendem que essa mudança cultural é justamente um dos caminhos para reduzir a violência no longo prazo.  A proposta dos encontros não se limita a responsabilizar os autores das agressões, mas também a estimular reflexões sobre masculinidade, relações de poder e formas mais saudáveis de lidar com conflitos.  O fortalecimento e a ampliação desses programas são apontados como estratégias importantes para evitar a repetição da violência e impedir que agressões evoluam para situações mais graves, como o feminicídio. No entanto, os indicadores nacionais mostram que a violência contra a mulher continua sendo um desafio de grande dimensão no país.  Alta dos índices Dados sobre violência contra a mulher Arte g1 Dados do Painel da Violência contra a Mulher, do CNJ, mostram crescimento expressivo dos registros relacionados à violência doméstica nos últimos anos. Os números revelam que, embora a rede de proteção e os mecanismos de responsabilização tenham sido ampliados desde a criação da Lei Maria da Penha, a violência contra as mulheres segue em patamares elevados e vem aumentando nos últimos anos. Para especialistas, o enfrentamento do problema exige uma combinação de medidas de proteção às vítimas, punição aos agressores, educação para a igualdade de gênero e ações preventivas voltadas à mudança de comportamento dos autores da violência.  Como denunciar Disque 190 para acionar a Polícia Militar em casos de emergência. Caso seja agredida e o autor esteja no local, tente de forma discreta ligar para a polícia. Há códigos como fingir que está pedindo uma pizza ou solicitando algum serviço de comida ou farmácia.  Disque 180 para acionar a  Rede de Atendimento à Mulher em situação de violência . Telefone para o número 100 para denúncias de violação de Direitos Humanos. A denúncia pode ser para você ou para terceiros.  Procure uma delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) quando quiser registrar boletins de ocorrência, solicitar medidas protetivas e pedir exames de corpo de delito. Em caso de agressão, é indicado ir o mais rápido possível para maior precisão no exame e possibilidade de prisão em flagrante do autor, que se dá nas primeiras 24 horas após o crime.  WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656-5008 . Unidades do Ministério Público para se informar e pedir ajuda na solicitação de medidas protetivas . 🟩O g1 Rio está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do g1 Rio para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop.

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/08/07/por-dentro-dos-grupos-que-reunem-autores-de-violencia-contra-a-mulher.ghtml


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